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  • Patricia Caetano M Santos

Sobre o Brincar


"As coisas estão mudando muito ultimamente ou nós quem não estamos acompanhando as novidades?" Esta foi a pergunta dos pais de uma menina de 7 anos, após uma reunião de pais na escola onde assistiram uma palestra sobre a importância do brincar, ignorando-se os rótulos de brinquedos de meninas ou meninos. A palestrante disse que criança é tudo igual. Estes pais tem dúvidas, o receio é errar. O questionamento deles surge pensando nas diferenças biológicas, etárias, étnicas, culturais,deficiências etc. A referência de educação que estes pais receberam foi polarizada: entendia-se que havia certo x errado, bom x mau, menino x menina... No entanto, de algumas décadas para cá, com a efetivação de leis sobre os direitos das crianças e adolescentes, estas nos tem provocado a pensar fora da caixa, sobre o quanto as coisas podem ser relativas e não tão exatas atualmente. Em termos legais, a legislação precisa garantir direitos para TODAS as crianças, independente de etnia, cultura, religião, região do país onde moram etc. Mas o casal acima não está falando de todas as crianças, está falando de uma em especial: a filha deles. A dificuldade é conciliar o que já está garantido por direito a todos sem ferir o individual. Vamos voltar à pergunta dos pais: as mudanças estão rápidas demais? A legislação é o códio moral de uma nação. Quando a lei muda, é para se adequar a mudanças que já estão acontecendo na realidade, para garantir o direito daqueles que não estavam incluídos nela. Por exemplo: há menos de um século, crianças eram consideradas miniadultos, podendo trabalhar e ter responsabilidades como adultos. O Estatuto da Criança e do Adolescente vem para definir que não, criança tem direito de brincar. Mas a lei é genérica, não fala sobre brincar com o que nem de quê. Sendo assim, os educadores se sentem mais à vontade para falar da importância do brincar e, mais ainda, independente do sexo biológico da mesma. Vamos fazer uma conceituação aqui, diferenciando sexo biológico de gênero. Sexo biológico é aquele definido no exame físico feito pelo pediatra quando o bebê nasce, sendo feminino, masculino ou intersexo. É o designado na certidão de nascimento. Gênero tem haver com identificação com comportamentos ditos femininos, masculinos ou unissex, e a noção de identificação só começa a ocorre um pouco mais tarde, quando a criança começa a dizer "eu quero", "eu gosto", "eu sou" e por aí vai. Na formação do sexo biológico o que define é a genética e o desenvolvimento do feto. Quanto ao gênero, ele se constitui com o desenvolvimento da criança, através de suas autopercepções diante de suas vivências biopsicossociais. Parte destas vivências tem a ver com o que ela assiste: ela pode identificar que as atividades de vida são separadas de acordo com o SEXO BIOLÓGICO, por exemplo como menino brinca de carrinho e menina de boneca. Para ela, as atividades de vida diária dela e de seus cuidadores são brincadeiras diárias. Por conta disto, o que é dito pode ser diferente do que é visto: ela vê o pai trocando a fralda do bebê e pode ficar confusa - mas se bebê é "boneca", e se menina que brinca de boneca, pai pode trocar boneca? Interessante pensar neste exemplo, porque há 20 anos atrás raramente um pai trocava um bebê, e hoje em dia já existe banheiro masculino com trocador. Veja, o sexo biológico tem a mesma definição, mas a visão de mundo está mudando, as crianças estão vivenciando coisas que nós adultos não experimentamos quando crianças. Além disto, como permitimos que a criança faça mais perguntas, hoje ela expressa pensamentos que quando crianças nem nos permitíamos pensar. Logo, se tudo está mais relativo, e temos mulheres motoristas de ônibus e pais que são donos de casa, como o brincar não será modificado? O brincar se constitui em repetir vivências diárias, para assimilá-las e apreende-las de modo individual. Se pensarmos em termos de desenvolvimento, até os 3 anos de vida, os jogos são relacionados a atividades psicomotoras, relação com os cuidadores e formação de vínculos de confiança em si e com as pessoas à sua volta. Em torno dos 4 anos, a criança começa a identificar diferenças entre as pessoas, seres vivos, tudo ao seu redor, tentando classificá-las e agrupá-las; começa também a demostrar maiores preferências individuais por roupas e alimentos (algumas crianças começam isto ainda mais cedo). Dos 5 até os 7 anos, entre as diferenças observadas estão as de papéis sociais, diferenças entre crianças e adultos, regras morais. Observe que a criança começa a identificar diferenças antes de relacioná-las a papeis sociais. Sendo assim, para ela, antes dos 4 anos em geral, as diferenças são agrupadas por observações concretas e não sua relação social. Quando ela estiver pronta para identificar papéis sociais, ela já agrupou informações as mais diversas para então correlacioná-las com atividades sociais. Por exemplo: se ela viu enquanto bebê avó, pai, mãe, tios trocando crianças, para ela o gênero de cuidado no futuro será unissex. Logo, o brinquedo bebê será unissex. Se ela não observar isto na sua vida, e só mulheres cuidarem de crianças no seu dia a dia, boneca será coisa de menina. Será que as mudanças foram rápidas mesmo? Costumo dizer que meses passam longos, mas dias passam rápido. E como a palavra relativo está cada dia mais em uso, precisamos perguntar qual a referência de cada um e não compará-las com as dos demais. Com a globalização, cada vez mais há inúmera possibilidades sobre o viver em sociedade, e por isto haverá cada vez mais referências particulares ou individuais. O que é melhor ou pior deve estar contextualizado. Mas sem dúvidas, criar filhos hoje é bastante desafiador. E se não tentarmos pensar sobre as multiplas possíveis referências de mundo que eles têm atualmente, será ainda mais difícil ajudá-los a se constituírem enquanto indivíduos no futuro. E este futuro do qual falo nem está tão distante!

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©2017 - Por Patricia Caetano Menegazzi dos Santos   | artedeescutarpsicologiaonline@gmail.com(19) 99210-1571 - WhatsApp